Saiba como conflitos familiares na sucessão podem quebrar seu negócio

A história da empresa familiar se confunde com a história do capitalismo. Famílias nas mais diversas culturas e etnias se organizam ao longo dos séculos para exercer a atividade empresarial e colecionaram sucessos e fracassos. Parece certo que as empresas familiares tem características que as impulsionam até certo ponto, a partir do qual, sem a devida preparação, a família começa a ser deletéria para o negócio. O ditado “pai rico, filho nobre e neto pobre” ilustra bem esse fenômeno.

No agronegócio isso não é diferente. Dentre as características das empresas familiares creio que a mais potencialmente nociva seja a capacidade que as famílias tem de gerar em seu seio conflitos que acabam por minar e por vezes inviabilizar o negócio como um todo. Entenda em três exemplos como isso pode acontecer:

 

Crise de sucessão

Ocorre quando o patriarca ou matriarca, fundador ou líder incontestável do negócio vem a faltar e não há a família uma organização voltada a definir como as coisas terão continuidade nem como o patrimônio será dividido. É um momento onde normalmente ocorrem muitos conflitos que estavam ocultos sob a autoridade daquele que se foi. Descobre-se então que havia uma falsa sensação de harmonia, aguardando a falta da principal liderança para se transformar em um conflito.

Pegos de surpresa os herdeiros normalmente querem impor aos outros aquilo que imaginavam ser o cenário mais adequado para o contexto em que se encontram e ainda acertar contas correntes do passado. Profissionais externos e agregados acabam influenciando e complicando ainda mais essa torre de babel e tudo isso ocorre em um momento de grande descapitalização causado pelos impostos e despesas de inventário.

Neste contexto o negócio precisa se reinventar do ponto de vista de sua administração e administrar os conflitos com racionalidade e comprometimento com o bem comum. Ocorre que sem a influência dos sucedidos isso raramente acontece. O saldo é que muitos quebram e os que conseguem sobreviver saem disso machucados emocional e financeiramente.

 

Crise de liderança

Irmãos ou primos ligados a negócios familiares herdam invariavelmente um patrimônio e uma sociedade. É uma sociedade imposta, pois apesar de se tratarem normalmente de pessoas muito diferentes entre si, terão elas de tomar decisões acerca dos rumos de um negócio que será de todos. É preciso portanto fazer a transição de um modelo de negócio que pertencia a um dono – que portanto mandava sozinho – para um modelo de negócio de vários donos – que portanto mandam em conjunto.

É como se um país deixasse de ser uma monarquia para se tornar uma democracia, e isso não é simples pois quem esta envolvido no processo raramente tem a clarividência de abstrair suas razões pessoais e enxergar o todo com tamanha racionalidade.

Como todos se enxergam como donos e não como sócios, e como todos são normalmente muito diferentes entre si, pois não tiveram a oportunidade de se escolher, é natural que não ocorra entre eles uma aceitação natural a novas lideranças, e na falta de um processo organizado para tomada de decisões como estas só resta as partes o conflito, onde invariavelmente todos acabam perdendo.

Crise de identidade

O que faz uma empresa ou uma fazenda prosperar e outras fracassarem é essencialmente o modo como fazem as coisas, ou seja, a cultura que a norteia. Essa cultura é criada e desenvolvida pela(s) geração(ões) que ajudaram a moldar o negócio. O problema ocorre quando ela não é transmitida para as gerações subsequentes e o negócio acaba perdendo a identidade.

Em um determinado momento o negócio (empresa ou fazenda) deixa de ser visto como algo em favor do que a família deva trabalhar para se tornar algo que deve exclusivamente servir a família, a famosa “vaca leiteira”. Essa mudança de paradigma gera conflitos principalmente entre aqueles familiares que trabalham no negócio e aqueles que não trabalham, e frequentemente acabam trazendo consigo a cultura da aristocracia, o nepotismo, e a falta de meritocracia.

Esse ciclo deve ser quebrado com um trabalho de preservação e transmissão dos valores, da memória e da cultura que norteou o sucesso que não deve se confundir com conservadorismo nem com acomodação e sobretudo com a profissionalização da família.

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