Observando o cenário atual do agronegócio, sobretudo a cadeia de grãos, fica cada vez mais claro que 2016 será um ano mais difícil para o setor. Após um período longo de rápida expansão, pode haver uma desaceleração no agronegócio, determinada por uma consolidação nos segmentos de grãos e fibras, que vinham puxando o crescimento do setor. Somente o setor de pecuária é que deve seguir com tendências ainda positivas.

A soja, que apresentou resultados bons nos últimos anos, deve ter um ano de 2016 mais apertado. As cotações da oleaginosa na Bolsa de Chicago (CBOT/CME Group) se encontram em patamares muito baixos, ameaçando cair ainda mais com o possível aumento da taxa de juros americana pelo Federal Reserve (FED).

Ao mesmo tempo, a valorização do dólar a partir do segundo semestre de 2014 encareceu o custo dos insumos importados, que representam cerca de 75% dos insumos consumidos no Brasil. Outras importantes commodities, como milho e algodão, também sofrem com os mesmos problemas.

Nesse contexto, as atenções voltam-se para a principal região produtora de grãos do país, o Centro-Oeste; não apenas por ser responsável pela maior fatia da produção, mas também, pelo fato de que, comparativamente, a região deve ser a mais afetada por essa conjunção de fatores negativos.

O Cerrado brasileiro apresenta os preços mais baixos de soja e milho do país, devido à logística deficiente em grande parte da região. Soma-se a isso o fato de possuir os custos de produção mais elevados, pois os solos mais pobres desse bioma necessitam de mais adubação para entregar uma produtividade semelhante àquelas alcançadas nos solos mais ricos em nutrientes.

Como agravante, nos casos de produtores de maior porte, é no Cerrado que é prática comum a venda de insumos e o financiamento bancário dolarizados, o que, tecnicamente, é recomendável para culturas de exportação; porém, na prática, vêm reduzindo os impactos positivos da desvalorização cambial para esse perfil de produtor.

A combinação desses três fatores faz com que os produtores da região tenham uma rentabilidade menor em comparação aos produtores do Sul.

Rentabilidade

Na Rentabilidade Operacional demonstrada na Figura 1 foram desconsiderados os custos de depreciação, oportunidade da terra e capital. Portanto, foram levados em conta apenas os itens que representam desembolso ao produtor, como insumos, operações, impostos etc. Também consideramos um produtor sem arrendamento e que não possui armazém próprio.

Porém, temos que incluir outros fatores – muitas vezes ignorados pelos analistas – nessa conta. Ao longo dos últimos cinco anos, o produtor do cerrado expandiu sua área de produção a taxas elevadas, tanto por meio de aquisição de terras quanto via contratos de arrendamento. Também investiu em maquinário, incentivado pelas linhas de crédito com taxas de juros subsidiadas pelo BNDES, tais como PSI-BK (Programa de Sustentação do Investimento para Aquisição de Bens de Capital) e o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns). A expansão foi viabilizada pelos preços atrativos das commodities nos últimos anos.

Impacto dos investimentos

Contudo, a conta dos fortes investimentos realizados em 2013 começa a impactar agora no caixa do produtor rural. Hoje o mesmo possui um enorme passivo resultante desses investimentos, o que, somado às perspectivas de manutenção dos preços nos níveis atuais, poderá trazer dificuldades de pagamento das parcelas anuais.

Na figura abaixo, observa-se a projeção do Índice de Liquidez Corrente (ILC) dos produtores de soja na região Médio-Norte de Mato Grosso para a Safra 2015/16. Caso esse índice seja inferior a 1, significa que as saídas de caixa são maiores que as entradas de caixa, o que indica a necessidade de obtenção de capital de terceiros para honrar os compromissos. Abaixo estão sendo considerados: 1) Custos operacionais de produção (já considerando o aumento da taxa de juros anunciada para o Plano Safra 2015/16); 2) Custo de arrendamento e 3) Parcelas de dívidas a pagar no ano:

Portanto, na atual conjuntura, a Agrosecurity recomenda atenção redobrada para as empresas e instituições financeiras que operam crédito rural com os seguintes perfis de produtores:

1) Produtores com grande percentual de área arrendada e contratos de arrendamento mais recentes. Nesse caso, os contratos mais novos tendem a ter taxas de arrendamento mais elevadas, o que pode comprimir ainda mais a margem do arrendatário;

2) Produtores que expandiram muito a área de lavoura sobre pasto nos últimos anos. Esse produtor desembolsou muito capital em áreas que vão dar prejuízo ou pouco retorno no curto prazo; ou seja, esse produtor pode ter a rentabilidade da atividade comprometida pelo prejuízo/empate nas áreas novas e

3) Produtores que fizeram grandes investimentos nos últimos cinco anos (em que o período de carência já venceu), tanto na compra de terras quanto na aquisição de máquinas agrícolas e equipamentos de irrigação e armazéns.

A nova matriz não resolveu o velho problema

É notável o clima de pessimismo existente entre os agentes da economia brasileira com os resultados negativos observados após a implantação do que ficou conhecido como “Nova Matriz Econômica” pelo governo brasileiro nos últimos anos.

Dados

Segundo dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o ICEI (Índice de Confiança do Empresário Industrial) está nos piores patamares, com o valor de 38,9, sendo que o valor da média histórica é de 56,1. Já o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), medido pela Fundação Getúlio Vargas, também está em um dos patamares mais baixos, com o valor de 85,1 em maio/15, sendo que a média dos últimos 5 anos é de 112,9.

Estamos vislumbrando a consequência lógica de uma política econômica que buscou estimular a demanda, com subsídios a diversos setores – através de isenções fiscais e estímulo ao crédito -, mas sem estimular o que realmente importa, que é o lado da oferta, com medidas que aumentem a produtividade do trabalho e melhorem a competitividade da economia brasileira.

Não fosse a desvalorização cambial, estaríamos provavelmente em patamares piores, pois o câmbio tem contribuído para melhorar a competitividade dos exportadores brasileiros. No primeiro trimestre de 2015, o PIB brasileiro recuou 0,2%, sendo a notícia boa para o leitor dessa edição do Boletim Agrofinanças a de que a agropecuária obteve crescimento de 4,7% no período.

Apesar do resultado positivo para o setor agropecuário em comparação aos demais setores, três fatores são preocupantes no período que antecede o início da Safra 2015/16:

1) Aumento dos custos de produção agrícola, em função da desvalorização cambial;

2) Baixa dos preços de importantes commodities agrícolas para o Brasil, como a soja e milho, em função aos elevados estoques existentes no mercado global e

3) Recuo do crédito bancário. Nesse ponto, destaca-se que, apesar do anúncio de aumento de crédito de custeio e comercialização na ordem de 33% para o Plano Safra 2015/16, isso não implica que esses recursos chegarão ao destino final, visto que isso depende da liberação dos bancos, o que, em um cenário de maior incerteza e menor rentabilidade dos produtores, dilata-se o grau de risco para os financiadores, que tendem a ser mais conservadores na concessão de crédito. Adicionalmente, a taxa de juros dos recursos de custeio controlado passou de 6,5% a.a. para 8,75% a.a.

Conjuntura

A conjunção desses fatores pode ser expressa através de alguns números que estão sendo divulgados, alguns de forma oficial por entidades de classe que representam o agronegócio, outros são observados nas conversas com operadores de mercado, nas áreas de vendas de insumos e análise de crédito das empresas. Abaixo, estamos enumerando alguns tópicos relevantes que estão se materializando:

1) Diminuição da venda de fertilizantes em 2015 (queda de 12% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos);

2) Redução da venda de máquinas agrícolas. A estimativa da ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) é de redução de 19,4% do volume de vendas em 2015 em comparação a 2014; isso é confirmado pela redução da disponibilidade de crédito de investimento na ordem de 13%, anunciado para o Plano Safra 2015/16.

3) Recuo de 27,1% na liberação do crédito dos bancos públicos no primeiro trimestre de 2015 em relação a 2014, segundo dados do jornal O Estado de São Paulo, em matéria veiculada em maio de 2015.

4) Atrasos pontuais, sobretudo na região do Cerrado, nos recebimentos das contas de empresas de insumos com vencimento em abril e maio de 2015.

Esses são fatores que já estão se materializando; no entanto, apontamos abaixo mais alguns desdobramentos que podem ocorrer na Safra 2015/16:

A – Safra Verão: diminuição das áreas das culturas que exigem maior valor de custeio, como o milho verão no Paraná e o algodão no Cerrado, com possível migração para soja;

B – Nas áreas de logística mais difícil, produtores de altas taxas de arrendamento podem não cultivar as lavouras e

C – Redução da tecnologia aplicada, com queda na adubação de solo, fertilizantes especiais e usos de defensivos genéricos.

As cadeias de carnes são as que possuem mais o que comemorar, pois a redução dos preços dos grãos significa menor custo de produção e o Real desvalorizado melhora a competitividade das exportações.

Otimismo

Apesar das adversidades apresentadas acima, devemos ressaltar que ainda existe um clima de relativo otimismo no agronegócio em comparação aos demais setores. Isso porque os fundamentos são positivos, visto que a demanda internacional continua crescendo; a crise interna verificada no Brasil possui atuação limitada sobre a demanda do setor, que possui menor elasticidade da renda em relação aos demais setores, dado o caráter de essencialidade da atividade agropecuária, onde as flutuações de demanda são mínimas.

Diferentemente dos demais setores, em que a crise é estrutural, no agronegócio a questão é conjuntural e determinada por uma sobre oferta de soja, milho, algodão e café no mercado internacional. Esse fator pode ser dissipado em um horizonte curto de tempo, a depender do comportamento da produção mundial nos próximos meses e da velocidade de consumo dos estoques.

Fonte: Agrosecurity Consultoria e Gestão de Agro-Ativos LTDA

Fonte: Federarroz

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