Uma matéria recentemente veiculada no site da revista Globo Rural, Veja aqui,  fala sobre um estudo da FIESP segundo o qual 40% dos pecuaristas irão abandonar a atividade na próxima década. Li essa matéria no mesmo dia em que me deparei com um artigo escrito pelo sr. Tarso Teixeira, Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel RS, no qual dizia que na pecuária há uma espécie de aversão aos números e, por conseguinte, à cultura de profissionalização empresarial, que afasta o segmento da exploração de seu melhor potencial. O autor chega a mencionar, citando uma pesquisa de campo, que a imensa maioria de produtores utiliza “manejo inadequado, produzindo resultados deprimentes, sem uma concepção empresarial de suas propriedades”.

Embora essas palavras sejam fortes é de fato notório para nós que acompanhamos de perto essa realidade, e suas honrosas exceções, a falta de profissionalismo e pragmatismo com que boa do setor conduz seus próprios negócios. Resumo disto é o dado mencionado por Tarso Teixeira em seu artigo dando conta de que para 52% dos produtores gaúchos a motivação econômica não é preponderante para o exercício de suas atividades. É perfeitamente possível e até nobre que o exercício da atividade seja motivado por fatores outros que não o vil metal, o grande problema está no fato de que há uma tendência muito forte de que um negócio venha a quebrar se seus dirigentes não estiverem altamente focados em questões como rentabilidade, lucratividade e planejamento de uma maneira geral.

No contexto de um modelo de negócios onde a lucratividade média é da ordem de 0,7%, uma questão que se impõe é: como é possível fazer com que novas gerações possam dele extrair a liquidez e a rentabilidade suficientes a fazer com que as famílias não cedam a pressão por desmanchar os negócios e pulverizar as propriedades? A situação será ainda mais dramática se compararmos a lucratividade do setor com o valor do patrimônio imobilizado. A tendência na pecuária é de que as famílias cresçam em velocidade muito superiores aos negócios e que com o tempo torne-se mais atraente vender o patrimônio para aplicar em investimentos de maior liquidez e rentabilidade.

Afora as questões econômicas acima mencionadas, de que são vítimas todas as empresas familiares, mas em especial aquelas que como a pecuária apresentam baixa rentabilidade em comparação ao capital investido, a pecuária ainda está exposta a todos os desafios relativos a complexidade dos relacionamentos familiares que fazem com que a passagem do bastão, a convivência societária e a partilha de bens sejam momentos tão traumáticos e por vezes definitivos na história destas empresas. As únicas maneiras de enfrentar esse dilema são o planejamento e o profissionalismo de que tanto carecemos.

Ricardo Paz Gonçalves

Diretor da Affectum Consultoria

Newsletter

Que tal receber mais conteúdos no seu e-mail?



Related posts

Related posts